Chinua Achebe, escritor nigeriano, nos entregou o conceito de tradição dialética, para falar das tradições vivenciadas na África Negra e com isso afastar a moldura que alguns insistem em aprisionar essas manifestações culturais como algo que, parado no tempo, precisa ser museificado, preservado, sem diálogo ativo com o que se chamou de presente e futuro. Concordando com ele, Amiri Baraka, em seu ensaio sobre música negra, refere-se primeiramente ao blues como o germe que deu origem às mais variadas sonoridades, como o jazz, o r&b, o soul e o gospel. Ele chamou essa raiz que vai dar origem a uma árvore cheia de novos frutos como o “impulso blues”, para logo depois classificá-lo como um “impulso africano”: a música afrodescendente dos EUA, derivaria de uma raiz comum, africana, que seria um núcleo, não rígido, do qual surgiriam novos ramos. Ou seja, um núcleo (tradição) em constante processo de mutação, em diálogo direto com sua comunidade e sua cultura viva-porque-em-mudança. Esse continuum cultural entre África e suas diásporas tem seu maior elo de ligação por e através da música, nosso principal meio de expressão, não por acaso, mas por sermos derivados de uma unidade cultural africana que tem a oralidade como forma hegemônica de transmissão de saberes.
E isso pode ser escutado em todos os aspectos do álbum Canto e Espanto o Teu Quebranto, da cantora e compositora caruaruense, Raquel Santana. Sua voz e timbre nos remetem à tradição das cantigas das ganhadeiras, lavadeiras, quebradeiras de coco de babaçu, ao mesmo tempo em que sua lírica e sonoridades diversas nos apontam novos caminhos. Há um respeito e até uma reverência ao passado, à ancestralidade, incluindo novas formas de expressar desejos e revoluções. Entenda o território imbricado e fértil que está sendo proposto pela artista: você vai ouvir maracatu, afoxé, coco, forró, cumbia, rap e afrobeat. Há lógica narrativa e estética, assim como política, unindo gêneros musicais negros locais com transnacionais. Não pense que há traços de aleatoriedade ou mesmo um balaio de gato, como falamos aqui no Nordeste, tudo está interligado cultural e historicamente. Raquel não apenas sabe disso, como mira e acerta o alvo de forma precisa e contundente, como o faz Oxóssi com seu ofá. Vinda de uma atuação profissional de militância política, pelo direito das mulheres e direito à terra, constrói sua persona artística a partir do saudoso Casas Populares da BR-232, grupo de coco recifense, tão aguerrido, quanto feminino: mulheres negras que abraçaram sua identidade como sinônimo de luta. Essas escolas nos remetem ao que a artista Nina Simone declarou sobre o fazer artístico: “O dever de um artista, a meu ver, é refletir sobre seu próprio tempo”. E aqui ela estava falando sobre sua posição política, dentro e fora dos palcos, de denunciar o racismo e todas as violências que este articularia para as populações negras. Raquel Santana reflete seu tempo, que é espiralar – não linear, dividindo presente, passado e futuro, como querem os europeus e eurocêntricos – falando de espiritualidades ancestrais, da luta pela terra, da luta das mulheres negras, que são muitas, do racismo e sexismo, que se unem para subalternizá-las, da violência e maternagem solitária.

Mas, hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás, como nos colocou um velho militante da esquerda. E Raquel traz a luta e a ternura, a sensibilidade e a crítica aos sistemas opressores de raça, classe e gênero, tal qual Angela Davis e uma de suas mestras, a nossa Lélia Gonzalez. Essa, que de forma pioneira tratou das interseccionalidades na Améfrica, termo que a própria desenvolveu e nos entregou uma análise robusta e complexa da cultura, política e sociologia do Brasil. A Améfrica diz mais sobre nós do que tudo que estudamos nos currículos eurocêntricos, ligando de forma orgânica as Américas à África, a partir das línguas que subvertem as do colonizador, a culinária, as danças e a música. Tudo isso são tecnologias ancestrais de continuidade e resistência, que apenas agora estão sendo lugares de conhecimento incontornáveis para a continuidade da vida nesse planeta. E quem muito contribuiu aqui e para o “futuro” são os povos originários, que Lélia não esquece de citar, assim como Raquel Santana, que também os agrega em sua narrativa sônica, reivindicando seu território, Caruaru, como parte das vivências e saberes dos Cariri. Apesar de questionado com muitos argumentos que merecem nossa atenção, o binômio afro-indígena foi real e sinônimo de sobrevivência, ciência e resistência anticolonial. Não podemos pensar quilombos, caminhos, tecnologias de plantio, alimentação e espiritualidade, sem pensarmos nesse encontro. Linhagens Congo-Angola, Iorubá, Guarani, Fulni-ô, Caiçaras, Potiguares, Guajajaras…
São muitos encontros que tecem o escudo contra o genocídio que está posto desde 1.500. Fizemos revoluções, resistências, artimanhas, capoeira, músicas, poesia e comunidade. Os maracatus, os mestres e mestras da cultura popular, o Boi Tira-Teima, Solano Trindade: junto com Zumbi e todos os revolucionários que vieram depois dele, sendo continuidade e semente para o porvir. Como pontuou o músico nigeriano Fela Kuti, um dos inventores do afrobeat, a música é uma arma do futuro e Raquel Santana entendeu isso, usando seu canto contra o quebranto que foi e é o colonialismo e todas as suas mazelas.

Confira o álbum visual da artista
Sobre o EP Canto e Espanto Teu Quebranto
Este é o primeiro disco da cantora e compositora Raquel Santana, de Caruaru, Agreste Central de Pernambuco. Lançado em 31 de dezembro de 2025, o disco contém 12 faixas que evocam a rica musicalidade da cultura popular pernambucana e nordestina, além de abraçar outros ritmos negros e indígenas como a cumbia, o afrobeat e o rap.
As canções falam sobre temas como racismo, machismo, maternidade solo, reforma agrária e celebram Caruaru, cidade da cantora. A obra tem produção musical Zé Barreto de Assis e incentivo da Lei Paulo Gustavo (Caruaru e Pernambuco).






